Festa do Bonfim. A lavagem incomoda e a igreja - Salvador/Ba

29 de janeiro de 2013

Fonte ibahia - Texto Nelson Cadena 
Festa do Bonfim. A lavagem incomoda e a igreja reprime com força policial de apoio.


Carroças puxadas por burros como a da foto de Americano da Costa, em finais da década de 40, representavam o lado profano da Lavagem do Bonfim, o préstito da quinta feira que já incomodava a igreja e a elite baiana desde meados do século XIX. Um cortejo que incluia cavalos e muares enramados com folhagens de pitanga, rodas de samba e de capoeira, batuques e muita animação.
Em 1856 o Jornal da Bahia alertava quanto ao que considerava uma manifestação pagã: “Ontem era dia de Lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim, para sua festa que celebra-se o domingo próximo, e como sempre houve no templo atos de desrespeito capaz de fazer estremecer um herático”. Antes disso, 14 de fevereiro de 1837, o arcebispo Dom Romualdo Antônio de Seixas, fizera duras críticas à festa, editando uma portaria na data. E em 1860 o Imperador da Áustria, o Principe Maximiliano relatara a Lavagem do Bonfim no seu diário de viagem como “louca bacanal”.
Xavier Marques, o ilustre escritor, descreveu a Lavagem na década de 20 como “festa de água e alcool, aquele enorme disparate de benditos e chulas de rezas e gargalhadas, de gestos contritos e bamboleios impúdicos. A Venus lá exibia as suas opulências carnais e os seus rebolados”.


O fato é que “os excessos” provocaram a hostilidade do clero e mais tarde uma ação represora. Em 1889, através de uma portaria do arcebispo Dom Antônio Luiz dos Santos, foi proibida a Lavagem e com o apoio do governador Manoel Vitorino, em janeiro de 1890, a guarda civica impidiu o acesso da população à praça da igreja. O povo ignorou a ação represora e na segunda feira, quando a policia tinha se retirado, compareceu ao local. 
Daí por diante a igreja e o governo assumiram posições ora conciliatórias, ora represoras, em relação à lavagem do templo. “O aparato dava ao recinto uma atmosfera de guerra. Os policiais exigiam que ninguem se aproximasse das grades, a igreja completamente fechada. Pequena multidão cá fora reclamava. Mais de uma preta velha com lagrimas nos olhos, dizendo que nunca vira  isso, proibir-se o povo entrar na casa de Deus” escreveu José Eduardo de Carvalho Filho, em 1923.
Em 1943 um aviso destacou o aspecto “pagão” da festa, mas o povo ignorou. Em 1948 a igreja foi fechada e nem o adro foi disponibilizado para lavagem, mesmo com a insistência de populares e alguns setores da imprensa mais liberais. Em 1949 um cordão de isolamento impediu a chegada do cortejo, às escadarias. E de lá para cá, outras portarias, e ações represoras ocorreram. Mas nada disso tirou a espontaneidade do povo baiano e a sua devoção em torno do Senhor do Bonfim, para uns, Oxalá, para outros.


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