"Camarotização"

Fonte: Gazeta Digital
Autor: Renato de Paiva Pereira
A vontade de cada um diferenciar-se do outro está no DNA humano. Desde sempre pessoas ou grupos sociais adotam práticas, atitudes ou comportamentos com o fim de serem percebidos como melhores que a média do grupo.Os ricos, poderosos e instruídos sempre querem diferenciar-se dos pobres: frequentam lugares diferentes, consomem outros produtos e tentam ter comportamentos sociais mais "educados". Mas as formas de separação estão ficando cada vez mais restritas. Os shoppings, por exemplo, que eram frequentados há algumas décadas por pessoas de maiores posses, popularizam-se totalmente. Os aeroportos, antes restritos aos ricos, hoje recebem todas as classes sociais. Os lugares turísticos que eram "reservados" aos viajantes mais abonados estão disponíveis para grande parte da população.
Entretanto não dá para ignorar a capacidade humana de criar coisas que separem os "bem-te-vis" da plebe. Vejam, por exemplo, os camarotes nos shows e campos de futebol. Ali, além do espaço privilegiado, conseguem se mostrar, através dos vidros, que são "melhores" que os outros. É a tendência de "camarotização" citado pelo filósofo americano Michael Sandel.
Mas há um fato novo que deu motivo a esta crônica: A agricultura, principalmente a que produz frutas e legumes, com sua constante evolução cada vez mais oferece alimentos baratos. Além de baratos são maiores e mais vistosos. A indústria de refrigerantes e cervejas também, com a modernização das fábricas, conseguem ofertar produtos muito variados com preços menores.
Mas o "mercado" começou a achar que as coisas estavam muito iguais: montanhas de frutas, legumes e verduras; prateleiras abarrotadas de refrigerantes, cervejas e outros que tais, expostos nas gôndolas, indiferenciadamente. Ciente do desejo que a "elite" sempre tem de variar, viu que havia espaço para iniciar uma transformação.
Precisava diferenciar, mas como? De repente surgiu a ideia para agradar a turma de cima: diminuir as embalagens destinadas aos ricos e manter, ou aumentar, as dos consumidores populares.Os refrigerantes, que eram padronizados em garrafas de 350 ml passaram para 1 litro, 2 litros e já estão em 3 litros. No contraponto, diminuíram para até 237 ml, as embalagens menores. A cerveja que no passado era de 600 ml. Já está sendo vendida em 1 litro e, na outra ponta, 350 ml. e 255 ml. Nos lugares mais "chiques" nem tem cerveja de 600 ml. A moçada "bem nascida" só toma as pequenas. É feio pedir a grande, embora tenha o mesmo sabor e custe menos. Talvez até por isso.
Frutas, legumes e verduras acompanharam o processo. Os mercados oferecem mini cenouras, mini pepinos e pequenas cabeças de alface embaladas individualmente. Uma cabeça grande de alface sai por 3 reais e uma cabecinha que não dá 1/3 da primeira pelo mesmo valor. Uma ponta da lavoura busca eficiência no tamanho da oferta, a outra, na aparência.
Claro que cada um vai ter uma teoria para explicar a atitude. Alguns dirão que tais embalagens preservam mais a cerveja e a alface, ocupam menos lugar na geladeira e evitam desperdícios. Outros vão garantir que a preferência pelo camarote é só questão de segurança. Sem problema, as teorias existem para muitas utilidades, entre elas a de justificar comportamentos.
Pode ser que o fenômeno da "camarotização", isto é, a separação física entre classes sociais, prospere para muitos outros setores. De repente os supermercados poderão ter ala VIP com entrada independente, cuja acessibilidade, tacitamente, será decidida pelo limite do cartão de crédito.