Fonte iBahia - Texto Nelson Cadena
Os índios da Bahia contavam a história do Deus branco que eles
denominavam de Sumé e que teria andado pelo mar, ás aguas se abrindo
para dar passagem e escapar das flechadas, e que teria deixado rastos de
sua existência. Na verdade, pegadas firmes nas rochas das praias de São
Tomé de Paripe e também de Itapoan, mais ou menos no trecho que a foto
de Americano da Costa (1951) revela. Uma lenda fascinante que o Padre
Nobrega ouviu dos Tupinambás e repassou para seus superiores em carta
escrita em 15 de abril de 1549.
Sumé era como os índios se referiam ao Deus branco que Nobrega
identificou como o apóstolo São Tomé, cuja suposta andança pelas
Américas, originou lendas afins no Peru (Viracocha), Colombia (Bochica),
Cuba (Zumi), Costa Rica (Zamia), Mexico (Cucucan entre os Maias e
Quetzalcocte entre os Aztecas). Nobrega conferiu pessoalmente a rocha em
Itapoan que os índios revelaram trazia gravadas como num molde
as pegadas do santo e que originou um culto que sobreviveu até meados da
década de 50 no século XX, no lugar onde foi erigida uma palhoça e uma
cruz.
Os Tupinambas também mostraram as pegadas do santo numa rocha na
praia de Paripe que recebeu o nome de São Tomé, justamente em função da
lenda indigena e do culto que dela se originou, com romaria que existiu
até quando uma rodovia passou por cima do local nos anos 20. Foi outro
jesuita, Simão de Vasconcelos quem testemunhou e relatou as impresões de
um pé humano, atribuídos a Sumé, ou São Tomé, na pedra de Paripe.
São inúmeros os testemunhos (Nobrega, Simão de Vasconcelos, Gabriel
Soares, Francisco Pires) sobre o assunto, inclusive objeto de
reportagens e fotos publicadas nos jornais em 1916, e muitas as dúvidas
sobre as supostas pegadas do santo. O que me fascina nessa história é a
imagem do Deus branco andando sobre as águas e elas se abrindo na sua
passagem, que nem no episódio bíblico de Moises na busca de terra
prometida. Também, o sincretismo evidente entre as lendas indigenas e os
mitos, ou episódios que originaram os relatos do antigo testamento.
Infelizmente as lendas de Sumé, ou São Thomé não deixaram um legado
para os baianos. Se fosse em outro país os locais onde as pegadas foram
descobertas estariam hoje preservados, sinalizados, representados,
abertos à visitação dos turistas e dos próprios baianos que assim teriam
uma maior auto-estima pela sua terra e uma melhor compreensão de suas origens.